Os efeitos da gourmetização: comidas tradicionais se tornam “chiques” e caras

A comida pode ser vista pela geografia com um símbolo cultural. A partir dela podemos identificar alguns fatores geográficos e históricos que fazem dela a representação de uma determinada cultura. Porém, em tempos de intensivos fluxos globais não tem como notar que os símbolos alimentícios culturais também acabam se modificando e “perdendo” a sua tradição original.

O movimento de gourmetização que vem acontecendo há alguns anos no Brasil, é sem dúvida um processo relacionado ao nosso sistema econômico, o capitalismo, que visa de todas as formas obter o lucro. O que os comerciantes fazem? É simples. Eles selecionam uma comida que é vista como básica e a sofisticam para poder agregar valor. Normalmente, a comida aparenta mais bonita, há ingredientes que não são muito comuns, e com isso, o preço também aumenta.

A revista super interessante citou 15 alimentos comuns que foram gourmetizados, dentro deles estão: pipoca, brigadeiro, geleia, farinha, coxinha, cachorro quente, pastel, churros e até mesmo ração. Além destes alimentos tradicionais bastante populares no Brasil,  o movimento tem atingido também outro setores alimentícios.

A polenta também se tornou alvo dos comerciantes gourmet. O que era na sua origem considerada comida de “pobre” se torna hoje um prato “chique” e caro.

O caso da polenta gourmet e a perda da tradição

 A polenta é de fato um elemento simbólico da cultura italiana. Mas vale lembrar que muito antes do milho (que é a sua matéria prima principal) adentrar no continente europeu, ele já era utilizado pela população originária da América. Além de ser um grão nutritivo, o milho é fácil de ser cultivado e reproduzido. Então, foi só a partir da invasão e exploração do continente americano que a Europa passou a conhecer o milho.

Historicamente, a polenta italiana era um alimento considerado de pobre por não precisar de muita matéria prima e por ser bastante sustancial.Tomando a polenta italiana como exemplo, há todo um rito cultural envolvido para sua produção. O tipo de panela que será utilizado, cozinhar em fogão a lenha, mexer de uma determinada maneira para que ela fique com a textura ideal. Depois de pronta, é colocada em uma travessa de madeira e cortada com um fio. E tradicionalmente é servida com queijo e salame.

As polentas gourmet servidas geralmente em festivais de comida, além de custaram para mais de R$ 30,00, costumam ter outros molhos para além dos tradicionais, como os feitos com cogumelos ou frutos do mar. Embora a base para a produção da polenta possa ser a mesma (água, farinha de milho e sal) é interessante notar como esse movimento gourmet pode alterar todo um contexto cultural que há em volta.

Pode até ser que a polenta dita gourmet servida com outros molhos e feitas de outras maneiras também seja saborosa, mas certamente nada vai superar a polenta feita pelas mãos da minha vó!

Reflexos da gourmetização no espaço

O caso da polenta foi só um exemplo para se pensar esse movimento de mudança que ocorre através de uma simbologia cultural, que é a comida. Então,  o processo de gourmetização é certamente um fator que influencia essa mudança, e se torna visível pelas ruas da nossa cidade. Cada vez mais se abre um estabelecimento com o nome de um alimento popular acrescentado com a palavra gourmet.

Não é de hoje que o consumo está relacionado a status. Mas é evidente que essa onda de gourmetização pode ser vista como mais um elemento de diferenciação social espacializada. Uma vez que comer coxinha gourmet te torna aparentemente “menos pobre” do que aquele que come a coxinha no terminal de ônibus.

Algumas referências para ler mais sobre o assunto:

http://blog.lojabrazil.com.br/gourmetizacao-da-gastronomia/#.WFRRjPkrLIU

https://geografia1004.wordpress.com/2012/09/09/la-bella-polenta/

http://www.vivendocomgosto.com.br/quem-inventou-a-polenta/

Por Natalia Benatti Zardo

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