Os não-itinerários de viagem

Se deslocar sem um roteiro estritamente definido pode ser uma boa maneira de descobrir novidades do mundo se deixando apenas levar pelo acaso.

Só o fato de querer realizar uma viagem já é um bom motivo para te fazer “perder” tempo de frente a um computador, geralmente pesquisando por inúmeras dicas que possam ajudar no seu planejamento. Planejar. É o que sempre te aconselham. Mas o que mesmo eu preciso planejar?

Ao decidir querer realizar seu sonho de viajar, certamente considerar as suas condições financeiras é essencial para definir o seu destino e as rotas a serem traçadas. Mas não é só sobre ter ou não dinheiro de que uma viagem se compõe. Se deslocar pelo mundo é uma das melhores sensações. Ao se dar conta de que você está rodando por aquele mapa-mundi estático colado na parede de casa, é sentir que é possível pular todas as fronteiras existentes, as quais por vezes são apenas imaginárias.

Sabemos que ao viajar é imprescindível conhecer o mínimo da geografia local, desde seus aspectos climáticos, culturais, até as logísticas de transporte. Isto tudo deve estar englobado no seu planejamento básico de qualquer viagem. Mas e sobre o que visitar? É necessário mesmo deixar todos os pontos pré-definidos? Provavelmente você responderá sim. E eu também responderia que sim.

Mas se pararmos para refletir, por que mesmo devemos seguir um roteiro especificamente turístico, se estamos indo para uma cidade onde há pessoas vivendo rotineiramente suas vidas enquanto habitantes locais? Por que não nos aproximar de um contexto “mais real”, menos fantasiado e recortado que o mercado turístico nos induz?

Ao jogar no Google um suposto destino junto da palavra “roteiro” você vai encontrar muitos roteiros prontos. Pontuando passo a passo da sua pretendida viagem.  As sugestões vão englobar provavelmente idas a museus, cafés, monumentos históricos, ruas famosas.

O interessante é que normalmente associado a estes roteiros prontos seguem palavras de ordem como: “você não pode deixar de conhecer”. Como se tirar foto na frente dos monumentos simbólicos fosse sinônimo de conhecer a cidade como um todo. Mas em era de sucessivos “check-in” em todas as redes sociais, a visão que se tem acerca de ser um “viajante” acaba se limitando a isso mesmo.

OUTROS OLHARES SOBRE OS ROTEIROS

Um artista plástico argentino, Jorge Macchi, realizou no ano de 2004 um projeto misturando geografia e arte que resultou na a exposição de arte intitulada “Buenos Aires Tour”.  A ideia central do projeto era de salientar pontos da cidade de Buenos Aires que são por muitas vezes esquecidas ou simplesmente ignoradas. Para isso, foi criado um itinerário a partir da quebra de uma placa de vidro em cima de um mapa da cidade.

O resultado da quebra gerou no itinerário representado na imagem abaixo.

mapa-vidro

A realização desse projeto é sem dúvida um disparador para pensarmos sobre os caminhos limitados que por vezes nos impomos, sem perceber o tiro que damos nos nossos próprios pés.

A ideia não é ser radical e ir contra os roteiros prontos. Não. Não é essa a ideia. O que se propõe, é que sejamos abertos para encontrar qualquer coisa que o destino previsto tem para nos oferecer, e que certamente será além dos pontos que “você não pode deixar de conhecer”. Os países, as cidades, os bairros, as ruas, os cafés, estão a nossa disposição para que possamos explorar, analisar, sentir. E não necessariamente precisamos nos restringir àquilo que é famoso!

Se você tem vontade de se arriscar em uma viagem, por qualquer espaço do mundo, mas ainda falta certa coragem, você pode ler algumas experiências de viajantes que se deixam levar pelos acasos geográficos e que com muito gosto compartilham dicas nos seus blogs pessoais. Há o caso do Renato Salles que a partir da sua experiência de ter conhecido algumas ilhas gregas a partir de um itinerário feito na hora, pode destacar alguns pontos do que se deve ou não se deve fazer em uma viagem sem roteiro, vale a pena a leitura no seu blog.

Não precisamos ir muito longe para afirmar que deixamos de perceber o que há em nossa volta. Tenho certeza que um conhecido ao te perguntar sobre o que há “de bom” na sua cidade você vai logo dizendo as coisas mais famosas, geralmente ligada às imagens turísticas…

Então, por que nós, enquanto cidadãos desse mundão, não nos permitimos incorporar a figura de viajante-curioso todos os dias? Por que ainda temos tanta resistência de nos deixar guiar pelos não-itinerários?!

Referência

http://baudefragmentos.blogspot.com.br/2016/04/maria-negroni-e-o-mapa.html

Por Natalia Benatti Zardo

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